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        Capítulo 01 - O sucesso de Ubirajara McLoser

Como um soldado vencido em batalha, eu voltava de mais uma entrevista de emprego encerrada com a frase “entraremos em contato”.  Depois de anos caminhando pela estrada de tijolos dourados em busca do sucesso, almejando posições de destaque em grandes empresas, ternos feitos sob medida, almoços de negócios em restaurantes finos e carros construídos para quem “chegou ao topo”, retornar para casa em um ônibus sacolejante e barulhento com o nó da gravata barata de algodão desatado, não despertava em mim a melhor das sensações. A minha carreira começou com uma busca tão modesta quanto justa: eu queria reconhecimento pelo meu trabalho e talento. Mas em pouco tempo eu me tornei seletivo, não era qualquer reconhecimento, deveria ser publico, acompanhado de um bom salário. O que eu buscava era o prestígio e meios de ostentá-lo. Foi preciso que as luzes dessa carreira se apagassem para  perceber que eu corria atrás de uma sombra.

A caminhada do ponto de ônibus a minha casa prometia ser melancólica. Nas ruas desertas daquela tarde de terça-feira, restavam somente árvores, muros e portões, antes testemunhas de minhas grandes conquistas da infância: batalhas vencidas, perigosos bandidos presos e gols antológicos feitos entre dois chinelos. Agora todos eles presenciavam um eu cabisbaixo que, como um leão covarde, se arrastava em busca do isolamento do lar lamentando mais uma rejeição. Por isso, quando eu vi o Bira espalhado em um banco da pequena praça do bairro, um sopro de animo me invadiu. Quem sabe não era isso que eu precisava, um bom papo descontraído como nos tempos da infância.

Ubirajara McLoser, ou simplesmente Bira para nós, os íntimos. Alto, magro, muito branco e de cabelos vermelhos, era quem mais havia herdado as características de seus antepassados, bem conhecidos por todos nós através das histórias contadas pelo senhor Jurandir McLoser, pai do Bira. Família católica na Inglaterra protestante de Henrique VIII, tornaram-se protestantes no reinado católico de Maria I e novamente católicos no reinado protestante de Isabel I. Cansados da confusão religiosa, mudaram-se para a Escócia e montaram o primeiro empreendimento conhecido da família, uma tecelagem de kilts com estampas florais. Ali assumiram o nome Loser, pelo qual já eram conhecidos informalmente. Mais tarde a família iniciou uma movimentação global em busca de melhores oportunidades. Um grupo mudou-se para a Alemanha no inicio da década de 1910, converteram-se ao judaísmo e fundaram um restaurante “kosher”. Outros, convencidos por um amigo, mudaram-se para a Espanha para trabalhar em um tal Sindicato Libre. A natureza do trabalho, bem como da instituição, não ficaram muito claros para a família McLoser até chegarem ao país. Os antepassados do Bira vieram ao Brasil convidados pela corte de Dom Pedro II para trabalharem com o desenvolvimento de novos negócios no Império. Desembarcaram aqui em 17 de novembro de 1889, já desempregados. Daí em diante a família se virou como pode: acendedores de lampiões públicos, caçadores de ratos, entregadores de leite e professor de datilografia, profissão exercida até a aposentadoria pelo senhor Jurandir. Quanto ao Bira, sua profissão era cuidar da avó, pelo menos até a uma semana atrás.

Era uma daquelas tardes abandonadas a própria sorte. Além de nós, as duas únicas coisas que pareciam ter vida, até onde a vista alcançava, eram um cão revirando o lixo na calçada e um pedaço de papel, que vez ou outra tentava um voo com o vento fraco. Ninguém que pudesse presenciar o nosso reencontro desolador. Apesar de cursarmos juntos a faculdade, o Bira e eu seguimos por caminhos muito diferentes. Enquanto eu me preparava para chegar o mais rápido possível  à Cidade das Esmeraldas, meu amigo era eleito pela família como o cuidador oficial da senhora Andirá McLoser. Enquanto eu devorava livros sobre economia, estudava detalhadamente o mercado de derivativos, participava de todas as palestras com a palavra sucesso nos títulos e decorava linha por linha os hábitos das pessoas mais eficazes do mundo, o ilustre Ubirajara cuidava de Dona Andirá. Alimentava, ajudava ir ao banheiro, controlava os medicamentos, levava ao hospital, contava piadas, fazia graça como para uma criança, comentava com ela os programas favoritos da televisão e a ouvia, como ele a ouvia. Não importava quantas vezes ela contava a mesma história, ele ouvia com a mesma atenção da primeira vez.  Mas naquele momento, sentados no banco da praça,  braços apoiados no encosto, estávamos unidos novamente. O fundo do poço, afinal, parecia não ser um local tão amplo, já que, além do Bira, reencontrei vários amigos por lá.

Depois do choque da demissão, ergui a cabeça, organizei as minhas finanças e atualizei o meu currículo.  Mas algumas quedas são piores que outras, e mesmo com todo o esforço, levantar-se acaba se mostrando um obstáculo maior que nós. Com alguns meses de procura e muitos “não” educadamente ditos, a ansiedade aumentou e acabei tentando qualquer caminho que aparecia em minha frente, também sem sucesso. Nessa situação, não é incomum vez ou outra nos sentirmos abandonados. Parece que o mundo gira a nossa volta enquanto estamos presos nos grilhões do fracasso, incapazes de participar daquilo que chamam de vida. Mas diferentemente de mim, que tive os meus objetivos suspensos com a demissão, o que atormentava o Bira era o fato de não tê-los ainda. Nos últimos anos ele havia se doado às necessidades da avó, abdicado de seus desejos para se dedicar a ela. Com a morte de Dona Andirá, sua vida esvaziou-se, perdeu o sentido. Na busca por referências ele procurou por seus antigos pares, nós, seus amigos de infância e adolescência, e viu que estávamos ocupados demais com as nossas carreiras enquanto ele ainda não havia pensado em uma. Ele sentiu a necessidade de ter sucesso, e a angustia por não saber como tê-lo.

O sucesso é uma daquelas palavras fantásticas que se moldam diferentemente no imaginário de cada um, e por isso mesmo ela tem uma característica tão marcante em nossos tempos: ela vende, e muito. Não é necessário muito esforço do orador, basta que ele mantenha o sentido da palavra em quadros genéricos e a própria plateia se encarrega de ajustá-la ao seu desejo individual, seja ele o dinheiro, os bens materiais, seja o status, a posição social, seja a fama e a adulação, ou simplesmente outra palavra tão maleável quanto a primeira: a busca pela felicidade. Quisera os céus que os sapatos tivessem a mesma flexibilidade dessas duas palavras. Imaginem um calçado que, uma vez colocado nos pés, ajustasse o tamanho, modelo, cor e a sua finalidade ao gosto do cliente? Nunca mais seria necessário buscar no estoque tantas possibilidades  torcendo para uma delas agradar. Essa maravilha comercial, apesar de ser somente um sonho para os nossos dedicados atendentes do comércio calçadista, já é uma realidade para os vendedores do sucesso. Infelizmente, são poucos que trabalham nisso com a responsabilidade exigida. A maioria, com o tempo, se tornam magos de Oz que fixam nos olhos dos ouvintes as lentes verdes que comercializam.

Mas apesar do seu mau uso, o sucesso existe, não como um objetivo a ser alcançado, mas como uma consequência dos atos que realizamos, das decisões diárias que tomamos. Ele é uma medida da forma como trabalhamos as nossas circunstâncias em relação aquilo que buscamos.

Depois de todo o meu trabalho, estudo e dedicação, eu realmente havia adquirido um grande conhecimento e habilidades na minha profissão. Se isso não me trouxe dinheiro e prestígio, foi porque, para isso, eu dependia de algo que estava fora do meu controle: das circunstâncias do mercado de trabalho. Alguém precisava ser demitido e entre várias pessoas capazes, fui o escolhido. Essa é uma confusão muito comum. As pessoas traçam os seus objetivos sem perceber que a sua realização depende de outros. Depositam o que é mais importante em suas vidas nas mãos de terceiros. Ou melhor, fazem dos objetivos que dependem de terceiros o próprio sentido para se viver. Não identificam naquilo que buscam, o que é responsabilidade exclusivamente sua e aquilo que inevitavelmente dependerá das outras pessoas e de situações fora de seu controle, ou pior, não buscam objetivos reais, resultados de ações realizadas ao longo do tempo,  mas somente o sucesso de vitrine.

A noite chegava e com ela os primeiros sinais de vida. Crianças voltando da escola, penduradas nas mãos das mães e avós, enchiam o ar com gritos alegres, risos e vez por outra, um choro manhoso. Os carros começaram a passar com frequência e agora o pedaço de papel bailava confuso entre uma roda e outra. Quanto a nós, enquanto a praça ficava para trás e tentávamos adivinhar o jantar de cada casa pelo aroma que chegava na calçada, nos animamos por termos vencido mais um dia, apesar do aparente fracasso. Pois esse sucesso anônimo, cotidiano, ignora todo conceito estranho à sua natureza, e ele continuará disponível a qualquer um que trabalhe as suas circunstâncias com sinceridade e coragem, continuará sendo a sombra das tarefas necessárias, ainda que desagradáveis, e estará sempre presente, seja aos pais que cuidam dos filhos, apesar do desemprego, ao empresário que busca soluções melhores para clientes e funcionários, apesar da crise, ou ao neto brincalhão que torna alegres os dias da avó, apesar do câncer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                           

 

Desquebrando Paradigmas

A incrível saga de um jovem em busca do sucesso profissional e financeiro.